MÉDICO AFIRMA: VIDA POR VIDAS DÁ FÔLEGO AOS HEMOCENTROS

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O doutor Jéssie Willie Santana Cardoso é um admirador do Projeto Vida por Vidas. Diariamente, ele percorre as ruas e o céu de Goiânia e Anápolis, socorrendo pessoas que precisam de atendimento médico urgente. Aos 32 anos de idade, formado em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG), o doutor Jéssie é médico socorrista do SAMU (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) desde 2007; atuando também no transporte aero médico (UTI Aérea). A todo o momento se depara com situações graves, onde pessoas feridas perdem muito sangue e precisam de atendimento emergencial. Para falar sobre a doação de sangue e sua importância, o médico concedeu esta entrevista ao site oficial do Projeto Vida por Vidas.

Quais fatores fazem uma pessoa necessitar receber sangue?
O ideal é que se evite o uso de transfusões de sangue, tentando sempre fazer um uso racional dos chamados hemoderivados e hemocomponentes. Uma transfusão sempre é um risco para quem recebe, pois podem ocorrer intercorrências agudas e crônicas, que podem complicar o quadro do paciente. Várias situações podem exigir que uma pessoa necessite uma transfusão sanguínea. Dentre estas, posso citar as anemias agudas (sangramentos, por exemplo) e algumas anemias crônicas; doenças que consomem as plaquetas, como dengue hemorrágica; leucemias agudas. O plasma fresco congelado pode ser usado para doenças que consomem fatores da coagulação, dentre outras situações variadas. Enfim, as indicações são numerosas e especificas para cada enfermidade e cada indivíduo. O mais importante é o uso criterioso do sangue.
Portadores de quais doenças necessitam receber sangue periodicamente?
Algumas enfermidades exigem que sejam feitas transfusões periódicas, como por exemplo, Anemia Falciforme, Talassemias, deficiências de fatores da coagulação (Doença de von Willebrand, por exemplo), Síndrome Mielodisplásica, Aplasia Medulares, dentre outras.
Estas doenças são adquiridas ou as pessoas nascem com elas?
Dentre as doenças congênitas podemos citar a Anemia Falciforme, Talassemias, assim como alguns distúrbios auto-imunes e deficiências de fatores da coagulação. Já as doenças adquiridas são as anemias agudas, algumas crônicas (por insuficiência renal, por exemplo), doenças hepáticas, dengue hemorrágica, dentre outras. |
Estas doenças podem levar à morte?
A ocorrência de óbito depende de vários fatores. A gravidade da doença, a adesão do paciente ao tratamento, idade e sexo do paciente; enfim, cada enfermidade e cada caso têm suas particularidades que vão direcionar se há um risco maior ou menor de culminar em um desfecho fatal.
Quais os riscos de se receber uma transfusão de sangue?
Pode haver complicações transfusionais agudas e crônicas. Como exemplo de reações agudas posso citar as reações alérgicas, reações febris, hipotermias, hemólises, sobrecarga de volume, contaminações bacterianas, embolias aéreas. Já as reações crônicas, comumente podemos observar as reações hemolíticas tardias, reação enxerto versus hospedeiro, púrpura pós-transfusional, hemosiderose e doenças infecciosas.
Crianças também recebem sangue?
As crianças portadoras das doenças citadas anteriormente podem necessitar de hemoderivados. Nestes casos devem ser respeitados alguns critérios importantes, como os valores de hematócrito (um dado contido no hemograma), idade e patologia de cada caso.
Com que periodicidade as transfusões são feitas?
A periodicidade depende de cada enfermidade e cada situação, como já foi mencionado. Porém deve-se tomar cuidado com uma intercorrência denominada hemossiderose, que é o acúmulo de ferro no organismo pela frequência das transfusões.
Existe algum medicamento ou tratamento que substitua a transfusão de sangue?
Existem algumas alternativas que podem ser utilizadas para se tentar prevenir uma transfusão de sangue. Em caso de necessidade de expansão de volume podemos utilizar soluções preparadas, como o Ringer com Lactato, Soro Fisiológico 0,9%, Haemaccel, dentre outros. A Eritropoetina é um produto que pode ser utilizado para acelerar a produção de hemácias pela medula óssea. Além destes, existem preparados de ferro para uso intravenoso, vitamina K, vitamina B12, ácido fólico e vários outros preparados que podem ser usados, cada um com seu critério. Outro recurso disponível é a transfusão autóloga, quando o paciente é o próprio doador. Em situações que se pode prever a necessidade de sangue (uma cirurgia, por exemplo), faz-se uma doação prévia, evitando-se problemas de incompatibilidades.
Mesmo com grandes campanhas ainda é muito baixa a porcentagem de brasileiros que doam sangue regularmente. Por quê?
Na minha ótica faltam mais campanhas de incentivo associadas com informação da importância da doação de sangue. Infelizmente, em pleno século XXI, ainda temos pessoas que acreditam que se pode pegar alguma doença doando sangue. A doação é segura, pois todo o material utilizado é esterilizado e descartável. As campanhas como o “VIDA POR VIDAS” deveriam ser mais frequentes e incentivadas pelo poder público. Infelizmente, hoje muitas pessoas só vêem que a doação de sangue é importante quando algum parente ou amigo necessita que alguém doe sangue para tratar de algum problema de saúde.
Quando alguém doa sangue, a reposição do volume doado leva quanto tempo?
A reposição do volume doado é rápida. No dia da doação é recomendado fazer uma boa ingestão de líquidos, e o próprio organismo se incumbe de produzir os elementos perdidos na doação. O homem pode doar de 2 em 2 meses, no máximo 4 vezes ao ano. Já a mulher somente de 3 em 3 meses, com no máximo 3 doações anuais.
Quando a medicina começou a usar a transfusão de sangue para tratamento?
As primeiras transfusões de sangue foram realizadas em animais no século XVII por Richard Lower, em Oxford, no ano de 1665. Dois anos mais tarde, Jean Baptiste Denis, médico de Luis XIV, professor de filosofia e matemática na cidade de Montpellier, através de um tubo de prata, infundiu um copo de sangue de carneiro em Antoine Mauroy, de 34 anos, doente mental que perambulava pelas ruas da cidade que faleceu após a terceira transfusão. Na época, as transfusões eram heterólogas (entre espécies diferentes) e Denis defendia sua prática argumentando que o sangue de animais estaria menos contaminado de vícios e paixões. Esta prática considerada criminosa e proibida inicialmente pela Faculdade de Medicina de Paris; posteriormente, em Roma e na Royal Society, da Inglaterra. Em 1788, Pontick e Landois, obtiveram resultados positivos realizando transfusões homólogas, chegando à conclusão de que poderiam ser benéficas e salvar vidas. A primeira transfusão com sangue humano é atribuída a James Blundell, em 1818, que, após realizar com sucesso experimentos em animais, transfundiu mulheres com hemorragias pós-parto.

Retirar do organismo de uma pessoa quase meio litro de sangue não é prejudicial? Este total representa qual porcentagem do nosso volume sanguíneo normal?
Um adulto tem em média 5 litros de sangue no corpo. A doação de 450 ml representa menos de 10% do volume de sangue total, sem representar riscos para a saúde do paciente.
Como médico socorrista, o senhor deve se deparar com muitas situações que levam a necessidade de transfusão de sangue. Com que frequência isso ocorre?
Dentro do trabalho no SAMU com frequência nos deparamos com situações onde o paciente pode vir a precisar de sangue. A mais frequente são as hemorragias agudas, geralmente traumáticas, que inicialmente são tratadas com infusão de soluções para expansão volumétrica (Ringer Lactato), mas que podem vir a precisar de uma transfusão. Outras situações são pacientes portadores de doenças crônicas que necessitam de uma transfusão, sendo então transportados para hospitais onde este tratamento pode ser feito com melhor adequação.
Às vezes ouvimos falar que os estoques estão baixos e chamam por novos doadores. Há falta de sangue nos Hemocentros?
Podemos dizer que não falta sangue, mas sim doadores de sangue. A necessidade de sangue é uma constante, pois sua utilização, apesar de criteriosa, é bastante ampla. Como as cidades hoje estão cada vez maiores, os problemas também crescem em proporção assustadora, como por exemplo, os acidentes de trânsito. Além disso, existe sempre a possibilidade de ocorrer alguma grande catástrofe, por isso a população deve ser consciente da necessidade de ser um potencial doador. Temos que nos conscientizarmos que não estamos sozinhos no mundo, precisamos sempre da ajuda do próximo, até para doar o nosso sangue.
Neste mês será realizada a quinta edição do Projeto Vida por Vidas. Qual a importância deste tipo de ação?
Este projeto tem hoje uma grande importância em nosso país hoje, pois oferece um fôlego a mais aos hemocentros. Porém não devemos parar por aí. A necessidade de doação de sangue é constante e deveria ser um hábito. Seria ótimo se outras instituições e até mesmo o poder público investissem mais em iniciativas semelhantes, pois assim poderíamos ter um problema a menos em nossos hospitais, além de nos beneficiarmos com o exercício da solidariedade. Por isso, é importante lembrar: Jesus doou TODO seu sangue por você!
entrevista concedida a Francis Matos |